Gelo derretido à porta do golo
Do sentimento de conquista histórica pelo primeiro ponto na Champions à frustração pela convicção de saber e dever fazer mais e melhor existe uma linha muito ténue. Falo do Zenit São Petersburgo, candidato ao título de equipa mais azarada da Europa. Se em Turim, a derrota acaba por não ser surpreendente, por um golo de diferença com uma Juventus acabada de regressar à alta roda do futebol europeu, a estreia em casa, na segunda jornada da Liga dos Campeões, foi no mínimo frustrante.
O temperamento gélido com que os russos costumam receber os adversários foi derretido por um Real Madrid super-eficaz. Um jogo em que ficou bem vincada a diferença entre dominar e controlar um jogo e onde se viu o Zenit a falhar golos em série e um campeão espanhol a colorir mentirosamente o resultado. Nova oportunidade de arrepiar caminho rumo a uma qualificação europeia aconteceu ontem, com a recepção ao (também) desconhecido Bate Borisov, da Bielorússia.
Nova demonstração de um sonho em tons russos, mas que a inexperiência não deixa passar à realidade. O Zenit é uma equipa empolgante, troca muito bem a bola, é rápida nas transições (principalmente ofensivas), com futebol a toda a largura do campo, com capacidade para criar espaços mas que invariavelmente não confirma essa vantagem com golos. Uma relação ainda litigiosa com os resultados que pode ser justificada em parte por algum azar, mas também por falta de agressividade, experiência e sobretudo ansiedade. A vontade de fazer tudo bem e rápido acaba por trair os russos à medida que o tempo passa, deixando o Zenit vítima da sua própria filosofia futebolística. Por vezes é preciso saber controlar o jogo com mais rigor e inteligência ao invés de procurar o golo a todo o custo. Saber onde e como colocar cubos de gelo em momentos decisivos do jogo são qualidades só ao alcance das grandes equipas.
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