Transformar sem vender ilusões
Da mudança comportamental do FC Porto de uma época para a outra, há uma evidência clara: a falta de classe de alguns jogadores. A justificação para a quebra de talento e de rendimento não pode passar exclusivamente pela saída de peças importantes como Bosingwa, Quaresma e Paulo Assunção, até porque a época foi estruturada e planeada sem a presença do trio, mas é incontornável o facto das más-substituições no plantel. A capacidade e o talento de Jesualdo Ferreira estão, esta época, mais do que nunca à prova, tal a forma como terá de encontrar soluções para resolver a crise, com a aparente falta de meios.
Ponto base para contornar a situação é perceber que alguns princípios de jogo terão de ser reformulados. Sem mexer no sistema, é importante compreender as características dos reforços e adaptá-las ao que se pretende para esta época, sem entrar repetidamente em comparações. Sem Bosingwa, o FC Porto perdeu capacidade nas transições. Se em termos defensivos, Sapunaru ainda disfarça, o problema coloca-se na forma da equipa a atacar. Com Bosingwa, o Porto jogava em toda a largura do terreno e conquistava facilmente a linha de fundo para abrir espaços para a entrada dos médios. Dos quatro laterais desta época, apenas Fucile consegue remediar essa forma de jogar sem perder o equilíbrio defensivo. Sapunaru defende razoavelmente mas nao estica a equipa para a frente enquanto Lino e Benitez são inconstantes e não têm a marca de qualidade registada FC Porto.
Com o início do processo ofensivo órfão da velocidade de um ponto-de-partida chamado Bosingwa, também o meio-campo se ressente. Raúl Meireles e Lucho Gonzales são intocáveis numa estutura que continua coxa sem o (agora) mal-amado Paulo Assunção. A capacidade de agarrar o jogo e estendê-lo no momento certo perdeu-se com a saída do luso-brasileiro. É inevitável voltar às comparações e à falta de classe de alguns jogadores do actual plantel do FC Porto para dizer que Fernando, ainda que não comprometendo, não é, neste momento, a chave para o equilíbrio da equipa, mantendo-se a incógnita sobre qual a melhor altura para lançar Pelé nesta debilitada estrutura do Dragão.
Sem poder contar com Tarik e Quaresma, que produziram muitos dos golos de Lisandro na última época, Jesualdo tem apostado em Rodriguez e Mariano, numa primeira análise, e em Rodriguez e Farias ou Hulk, num plano-B. Sem querer mexer na estrutura, Jesualdo Ferreira prefere manter o 4x3x3 com Lisandro na área, mas o argentino é obrigado a procurar outras zonas sem bola, porque as características dos extremos são outras. Quando o plano alternativo (4x4x2) é colocado em prática, é Farias ou Hulk que ficam perdidos na área. Se o argentino ainda tenta entender o jogo portista com algumas diagonais e trocas posicionais com Lisandro, já o brasileiro prefere resolver por conta própria, deixando a equipa ainda mais desequilibrada com os seus movimentos imprevisíveis.
Sem a velocidade de Bosingwa, o equilíbrio de Paulo Assunção e o virtuosismo de Ricardo Quaresma, o FC Porto de Jesualdo Ferreira precisa de novas dinâmicas de jogo sem, contudo, abdicar do modelo treinado nos últimos anos. Ou transmite à equipa novos princípios mais adaptados às características dos novos residentes do Dragão, ou precisa de comprar classe no mercado. São a capacidade e a mestria do professor que estão em jogo.
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