Ingenuidade e desconhecimento
Já muito se falou das goleadas sofridas pelos clubes e pela selecção nacional nos últimos dias. Entre Barcelona, Olimpiakos e Brasil, no espaço de 9 dias, o futebol português encaixou 16 golos, com apenas 5 marcados. Deixando para outra oportunidade os comentários à prestação da selecção, temos que Benfica e Sporting têm razões para estarem preocupados, sendo o caso do Benfica mais preocupante.
Em Alvalade, o facto do adversário ser o Barcelona acaba por atenuar ligeiramente a questão. É certo que o clube catalão lidera o campeonato espanhol, é provavelmente a equipa que pratica o futebol mais atractivo da Europa, tem o jogador mais virtuoso da actualidade e esta temporada já marcou por seis vezes 5 ou 6 golos num só jogo. Ainda assim, foi um Sporting muito vulnerável e previsível para os exigentes desafios da Liga dos Campeões. O Barcelona jogou com os blocos altos e em constante pressão, fez circulação de bola sempre no meio-campo adversário, e sem grande oposição, e impôs os ritmos de jogo. Até quando sofre o segundo golo, que poderia dar nova alma ao jogo e ao resultado, o Barcelona mata as esperanças do Sporting com o 4-2 no minuto seguinte, aproveitando uma defesa leonina verdadeiramente kamikaze.
Foi um Sporting sem força e sem resposta à superioridade do adversário, com processos de transição deficientes e lentos e com intranquilidade e desconcentração que são mortais contra equipas de primeiro plano. O Barcelona já lá vai. A boa notícia é que na próxima fase, o adversário não será da Catalunha. Do jogo com o Barcelona, é preciso tirar respostas para os oitavos-de-final.
Pior, o Benfica. Não só porque comprometeu praticamente a época na Europa, como a humilhação de sofrer 5 golos do Olimpiakos, naquele que foi o 3º pior resultado da história nas competições europeias. Apesar da qualidade do campeão grego, é seguro que a diferença entre os dois clubes não é representativa do jogo de quinta-feira. Para além da desconcentração, falhas defensivas, má entrada em jogo, ineficácia atacante, algum azar e até falta de capacidade de resposta a um ambiente adverso, tenho a forte convicção de que este resultado passa também em parte por um mau trabalho de casa. Pareceu-me claramente que o onze do Benfica não conhecia o adversário e as qualidades individuais do opositor.
Diogo, Galletti e Bellushi são agora jogadores conhecidos em Portugal, mas não eram até há dois dias. Passou por saber olhar para o adversário com mais respeito e conhecer a dinâmica de jogar do Olimpiakos, e transmiti-la de forma correcta aos jogadores, o fracasso da noite de Pireu. Agora é fácil saber que no 4x4x2 de Ernesto Valverde, o ponto de partida ofensivo é feito pelo duplo-pivot Patsazoglou ou Soltidis/Dudu Cearense (este mais de contenção), com Galletti e Djurdevic bem abertos nas alas a darem profundidade e a abrirem espaços para as entradas de Diogo e Belluschi/Kovacevic. Se for o argentino de início, Diogo aparece mais fixo, enquanto se jogar o veterano sérvio, é o brasileiro a ficar mais solto, nas suas costas. Um retrato táctico sucinto de como joga o Olimpiakos que parecia ser desconhecido aos responsáveis do Benfica antes do jogo.
Ainda sem comentários.